Tuesday, July 31, 2012

DIALÉTICA DO ENCONTRO


Encontram-se.
Atraem-se
Procuram-se
Entregam-se
Fundem-se
Extasiam-se. Extasiam-se. Extasiam-se. Extasiam-se. Extasiam-se
Afrouxam-se.
Desviam-se.
Afastam-se.
                                                                                              Separam-se.
Encontram-se!

Sunday, April 22, 2012

Para Kátia Martins


TANGENDO O INTANGÍVEL


De repente ouvi um mover de asas e fiquei assustada. Em minha ingenuidade histérica achei que fosse um morcego.
- Esses morceguinhos do litoral só comem frutinhas! - dissera a menina, especialista nos assuntos da natureza, alguns dias antes.
Gritei:
- Morcego! Morcego! Morcego dentro da casa!
De novo a menina:
- Não é um morcego, sua boba! Olha, tira essa coberta da cabeça!
Relutante, peguei meus óculos. Lá estava ele: um beija-flor!
Fiquei calada. Incredúla. Observando.
Lá estava ele. Tão pequeno, tão frágil, tão inacreditavelmente frágil e próximo: um beija-flor. Verde, não bandeira, não limão. Verde verde daqueles que pareciam reunir em si todos os verdes existentes e inexistentes.
Fiquei parada. Observava cada movimento do bichinho. Suas asas batendo freneticamente a procura da saída. Seus giros, suas paradas no ar. 
Tão lindo, tão burro. Será que ele não percebe  janelas e portas abertas? Por que não vai embora ao invés de se debater? 
Fiz esquecimento do bichinho. Mas não conseguia deixar de olhá-lo com admiração, perplexidade, dó e raiva. Como um bicho tão lindo pode ser tão imbecil?
Resolveram botá-lo para fora. Gritos, correrias, panos batendo na parede. O bichinho, tão frágil, voava dum lado pro outro, totalmente perdido, esgotado. Eu o olhava sem nada poder fazer.
Mas a cada voadela que ele dava meu coração se apertava. Sentia vontade de conduzi-lo ao seu destino, mas ele não deixava.
- Caiu! Alguém gritou.
Não falei nada. Fiquei parada, enquanto os outros o recolhiam do sofá. Ele morreu, pensei já com os olhos marejados. Ele morreu.
Caminhei e peguei-o. Não morreu! Não morreu! Ele estava ali em minhas mãos. Estava segurando um beija-flor. Ele só pode estar morrendo. Ele está morrendo! Suas asinhas inquietas e ritmadas, agora pousadas, estendidas, inertes.
Fui para o quintal. Ali no meio do jardim, em meio ao canto de outros pássaros, ele poderia voltar a bater suas asas. Abri lentamente minha mãe direita, para deixá-lo voar. Nada. 
Seu bico fino e comprido contrastava com seus olhinhos pequenos. Cílios que piscavam pesadamente no mesmo movimento do corpo que tombava cansado. Uma criança com sono. Uma minúscula criança. Não sei se prestou olhar nos meus olhos também, mas isso não importava. Ele estava ali comigo.
- Quem sabe se a gente oferecer uma flor?
Delicamente o néctar perfumou o bico do bichinho. Não se movia, não fazia sinal de agrado.
Eu não ousava tirar os olhos dele. Tinha em minhas mãos o intocável, não queria perdê-lo. Não quero perdê-lo. Não quero.
Num piscar de olhos, já não o tinha mais. Ele voou. Talvez por dó de mim, não voou rapidamente. Caprichoso ficou por ali de flor em flor, enquanto suas asas iam batendo com mais intensidade. 
Fiquei ali por um bom tempo vendo-o se afastar e desaparecer para sempre. 
Só me restou uma história.




Tuesday, February 21, 2012

Agora

E o que fazer agora?
Agora... Agora...
Agora o desejo vai embora.

Não foi.
Desejo

Desejava.
Desejava tanto, tanto,
Que na hora do encanto,
Desencantada estava.
Descoberta

Desejo.
Interrupção.
Desejo.
Interrupção.
Desejo.
Interrupção.

Interrupção.

Interrupção?
Não!

Gira mundo, mundo gira
nas rodas do gira mundo
um mundo está a rodar
Roda, roda, roda mundo
gira, gira, gira mundo
enquanto o mundo gira
girando somos a girar.